
Até ao dia em que aquela senhora deixou de vir…. Deixou de se ouvir a máquina que faz um barulho horrível, deixou de se sentir o calor da outra máquina. Podia ir aos vasos sempre que quisesse, ninguém parecia importar-se…
Nunca havia ninguém em casa. Ficava sempre só eu… Não havia movimento, não havia barulho. Tinha que dormir umas 9 ou 10 vezes para ela chegar e mesmo assim ainda esperava, esperava, esperava… Passava cada vez menos tempo comigo. Saía sempre apressada… Andava sempre cabisbaixa… Pensativa… Triste…
Um dia, ouvi as chaves tão cedo! Fiquei radiante! Corri para a porta. Esperei e quando entra alguém, não era ela! Era a senhora que deixou de vir! Mas não vinha sozinha…. Quem é? Um senhor? Não conheço este senhor…
Começam a mexer em tudo, a tirar coisas, a levar coisas… um reboliço enorme… eu corro de um lado para o outro… Para onde vão levar tudo isso? Que estão a fazer? E foram embora!
Outra vez sozinha! Lá vou eu dormir mais não sei quantas vezes até ela chegar… O tempo não passa… Durmo, durmo… e o barulhinho mágico surge: as chaves! Mais uma corrida para a porta… Ela entra, olha, e fica parada no mesmo sítio, sem se mexer… Mio, roço-me nas suas pernas, mio mais alto… ela não reage. Não me vê sequer… Não vê nada mais para além daquilo que falta… Está assustada, está triste… Chora, chora, chora… Roço-me nela, salto-lhe para o colo, mio… “Que tens patroa? Porque estás assim? Eu estou aqui…” Mas ela só chora…
Estamos ambas tão assustadas… Soluça, chora… Nem respira… O telemóvel toca e ela atende… mas não fala! Desliga e sobe as escadas! Corro atrás dela! “Hoje não te deixo Patroa”. Despe-se e toma um banho! Deita-se no sofá! Nem a luz acendeu hoje!
Chaves… Deve ser o patrão! Ele entra, abraçam-se! Ela chora novamente. Pegam nas coisas e saem outra vez…. E eu? Eu fico aqui sozinha outra vez…


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