quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Uma Perspectiva Diferente da História


Parte II

E de repente, começa um grande reboliço. A casa começou a ficar cada vez mais vazia. A cama onde costumava dormir desapareceu. Cada vez tinha mais espaço para correr e menos sítio para dormir. Até que um dia, pega-me ao colo e começa a descer as escadas. Sei que isso nunca é coisa boa. Pensava que ia levar-me outra vez para aquele sítio das pessoas com batas verdes que dão picas. Comecei a rabiar mas não consegui fugir. Entramos no carro e seguiu-se uma longa viagem. Estava escuro e eu via muitas luzes a passar, primeiro muito devagar, depois muito depressa e depois devagar outra vez. O carro parou e eu estava tão assustada. Ela pegou-me ao colo e levou-me para uma casa.

Era uma casa grande, com muito espaço para eu correr e com muitos sítios para eu dormir. Pousou-me e eu cheirei, cheirei, investiguei, fui à descoberta. Aos poucos fui reparando nas mais diversas coisas: nas janelas que há tecto por onde eu era capaz de escapar, por onde eu vejo os pássaros e salto o mais alto que posso a tentar apanha-los, por onde entra o sol quentinho que eu adoro aproveitar para dormir uma soneca; há uma varanda onde eu adoro empoleirar-me a respirar o ar da rua, de onde eu consigo ver os meninos a brincar na relva, de onde eu consigo ver os outros gatos que andam na rua.

No início foi estranho, mas, como raramente estava sozinha, depois habituei-me a este novo sítio. Então começou novamente a rotina. Todas as manhãs, mal entra o primeiro raio de luz, acordo e começo a andar de um lado para o outro. Ela não acorda. Começo a lançar pequenos “miaus”. Ela mexe-se, mas não se levanta. Não está a resultar! Então, começo a mexer em tudo, a miar, a fazer o máximo de barulho. E ela levanta-se finalmente. Acende a luz, deita-me comida, fecha a porta e volta para a cama para dormir mais um pouco.

Umas horas mais tarde, começa aquela música a tocar. Toca uma vez, e pára. Toca novamente, e pára. À terceira vez, corro para a porta do quarto. Sim, é à terceira vez que ela se levanta. Abre-se a porta e eu mio, roço-me nas suas pernas, acompanho-a para todo o lado para aproveitar todos os bocadinhos. Daqui a pouco vai embora! Mas antes, dá-me aquela deliciosa comida que eu fico a comer enquanto vejo a sua saída. Fico então o resto do dia com aquela senhora que me deixa trepar à varanda, que me ralha quando estou na terra, que anda quase sempre com aquela máquina que faz um barulho horrível ou com aquela outra que faz muito calor.

O dia vai passando e, tal como na outra casa, espero impaciente que ela chegue. Durmo umas 3 ou 4 vezes, brinco, como e bebo, durmo mais uma vez, e ouço ao longe o barulho de um porta-chaves. Corro para a porta, mio, arranho a porta, até que ela entra. Pega-me ao colo, dá-me mimos, brinca comigo e eu não saio da beira dela, nem quando vai dormir. E era assim todos os dias…

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