sexta-feira, 12 de março de 2010

Um Acordar Igual Para Um Dia Diferente – Parte II


Abro a gaveta, escolho um conjunto de lingerie: a tanga é preta, rendada, com duas fitas vermelhas entrelaçadas que terminam num pequeno laço atrás; o corpete, também preto rendado, tem um laço de fita vermelha preso na alça esquerda… Visto a tanga, visto o corpete, aperto todos os colchetes, um a um… calço as meias pretas de ligas…


Olho para o armário… percorro com os olhos todas as roupas penduradas… O dilema do costume: o que vestir?!? Penso por segundos e lembro-me de que se trata de um jantar de negócios… Fixo-me naquele vestido preto, curto… Pego nele como que por instinto e visto-o. Pego no lenço vermelho e ponho-o em volta do pescoço. Calço sapatos altos, pretos, tacões agulha…


Espalho batom vermelho pelos lábios, traço um risco preto nos olhos, remexo o cabelo encaracolado cor de mel… Olho-me ao espelho e agrada-me o que vejo! Aplico o toque final: perfume!
Sim, agora estou perfeita!

Olho para o relógio e percebo que está na hora!

Visto o meu casaco vermelho, pego na bolsa preta de mão, abro a porta e saio.


Desço a rua até à esquina e espero.
Ao longe, o carro descrito pelo telefone aproxima-se. Pára junto a mim. O vidro vai descendo e um rosto desconhecido vai surgindo. Os olhos eram pretos, profundos… a barba impecavelmente feita… o cabelo penteado para trás. “Pronta?” pergunta. “Sempre!” respondo. E antes que eu tentasse sequer abrir a porta, sai do carro, abre-me a porta de trás e dá-me instruções para entrar. Vestia um fato preto de linho, com uma camisa também preta. Os sapatos brilhavam, reluziam.


Espreito desconfiada e dou de caras com outro rosto desconhecido… Sento-me no banco traseiro e sinto a porta fechar-se logo de seguida.

terça-feira, 9 de março de 2010

Um Acordar Igual Para Um Dia Diferente... Parte I


Um raio de luz entra pela janela despertando-me do sono. Luto contra a claridade. Esforço-me para não abrir os olhos. Não! Não quero abrir os olhos. Não! Não quero olhar em volta e ver onde estou…

Fecho os olhos com toda a minha força… mas a claridade parece aumentar provocando ardor no meu olhar.
Abro os olhos a medo… Olho em redor… Onde estou?

Levanto-me com cuidado, muito lentamente… Não! Não quero que acorde! Não! Não quero olhar aquele rosto de novo.
Pego nas minhas roupas do chão e visto-me com rapidez. Pego no envelope deixado à entrada do quarto e, sem olhar para trás, saio e bato a porta.

Deixo o edifício discretamente, como habitual.

Entro no carro e fecho os olhos desejando chegar a casa como que por teletransporte.

Entro em casa… Dispo-me enquanto caminho para a banheira deixando para trás um rasto de roupa no chão… deixo a água a correr enquanto ponho música.

Entro na banheira e sinto a água a percorrer-me todo o corpo. Relaxo… Acalmo… Ouço Alanis … “Isn't it ironic... don't you think… It's like rain on your wedding day”... Relaxo... Deito-me na banheira... Fecho os olhos…
Abro os olhos de repente! A água está fria…. A minha pele está enrugada. Há quanto tempo estou aqui? O meu corpo está roxo… Tremo de frio!

Por instinto, ligo a água quente para aquecer-me e deixo-me estar… A minha pele ganha um tom avermelhado com a temperatura da água.

Apanho a toalha e enrolo-me nela. O chão fica pingado... O vapor paira no ar… Limpo o espelho embaciado e penteio o cabelo molhado… Vou para o quarto, enxugo o corpo na toalha deixando-a caída no chão.

Visto o roupão e desço as escadas! Preparo uma tigela de cereais e sento-me no sofá a comer enquanto ouço Otello de Verdi.

Fecho os olhos! Consigo lembrar-me das minhas aulas de piano quando era miúda… Sentir as teclas por baixo dos dedos… As mãos movem-se com suavidade… leveza… O mundo parece parar!

Rapidamente volto à realidade com o telefone a tocar… Trabalho para esta noite: Jantar de negócios…